Por que importa
Federici oferece ferramentas conceituais para três debates que não saem da agenda pública: a crise do cuidado, o colapso ambiental e a crítica ao capitalismo verde. Professores de educação ambiental encontram em Calibã e a Bruxa a fundamentação histórica que conecta exploração de mulheres e destruição da natureza ao mesmo processo. Não duas metáforas paralelas: a mesma operação de acumulação primitiva. No Brasil, suas ideias circulam nos movimentos feministas, nas pesquisas sobre trabalho doméstico e nos debates sobre povos originários e territórios. Nenhum professor que trabalhe com gênero, natureza e capitalismo consegue ignorar Federici.
Contribuições ao pensamento
A acumulação primitiva tem gênero+
A caça às bruxas como guerra de classe com dimensão de gênero+
O corpo como o primeiro cercamento+
O trabalho doméstico como trabalho invisível+
Os comuns como alternativa anticapitalista+
Obras principais
2004 (original) / 2017 (BR Elefante) / 2024 (BR Boitempo)
Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva
A obra que demonstrou que a caça às bruxas europeia foi um componente estrutural do capitalismo: não superstição, mas violência fundante contra a autonomia das mulheres e o cercamento dos comuns.
2012 (original) / 2019 (BR Elefante)
O Ponto Zero da Revolução: Trabalho Doméstico, Reprodução e Luta Feminista
Coletânea que reúne os ensaios centrais de Federici sobre trabalho doméstico, reprodução social e a campanha Wages for Housework: o núcleo teórico e político de toda a sua obra.
2019 (original) / 2022 (BR Elefante)
Reencantando o Mundo: Feminismo e a Política dos Comuns
Ensaios sobre feminismo e a política dos comuns: como reconstruir formas coletivas de vida como alternativa ao capitalismo, defendendo o que existe antes e fora do mercado.
2021 (BR Boitempo)
O Patriarcado do Salário: Notas sobre Marx, Gênero e Feminismo
Como o trabalho assalariado tornou-se o mecanismo pelo qual o capital controla e divide a classe trabalhadora ao longo de linhas de gênero, e por que isso ainda importa.
1975
Wages Against Housework
O panfleto fundador da campanha Wages for Housework: a declaração teórica de que o trabalho doméstico das mulheres é trabalho, e que exigir salário por ele é um ato revolucionário.
Contexto histórico
Para compreender Federici, é necessário entender o problema que ela se propôs a resolver. Quando Marx escreveu O Capital, descreveu com precisão como o capitalismo nasce de um processo violento: a expulsão dos camponeses de suas terras, a destruição das formas comunais de vida, a transformação de seres humanos livres em trabalhadores assalariados. Esse processo, chamado acumulação primitiva, é o capítulo fundante do capitalismo. O que Marx deixou em aberto foi a seguinte pergunta: o que aconteceu com as mulheres nesse processo? Quem sustentou biologicamente a reprodução da força de trabalho? Quem cuidou dos enfermos, educou as crianças, produziu alimentos para os trabalhadores? Federici se debruça exatamente sobre esse silêncio. Ela escreve a partir de um período histórico específico: os séculos XVI e XVII europeus, em que dois processos ocorreram simultaneamente. O primeiro foi a expansão colonial para as Américas e a África. O segundo foi a grande caça às bruxas na Europa. Para Federici, esses dois processos não eram coincidências. Eram as duas faces de um mesmo projeto de violência fundante. O capitalismo não surgiu apenas expropriando terras. Surgiu também disciplinando e controlando os corpos, especialmente os corpos das mulheres.
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Influências
Externas
- · E. P. Thompson
- · Mariarosa Dalla Costa
- · Selma James
- · Mario Tronti
- · Antonio Negri
- · Leopoldina Fortunati
Biografia
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Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942, e migrou para os Estados Unidos em 1967 com uma bolsa Fulbright para realizar seu doutorado em Filosofia na Universidade de Buffalo. Ali entrou em contato com os debates do marxismo operaísta italiano e com os movimentos feministas em ascensão no ambiente universitário norte-americano.
Em 1972, cofundou o Comitê Internacional Feminista ao lado de Mariarosa Dalla Costa e Selma James, lançando as bases para a campanha internacional Wages for Housework. A campanha não era apenas uma reivindicação salarial: era uma declaração teórica de que o trabalho doméstico e reprodutivo das mulheres sustentava o capitalismo sem ser reconhecido como trabalho.
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, Federici ampliou sua pesquisa para a história da caça às bruxas, da acumulação primitiva e da colonização. O resultado dessas décadas de pesquisa foi publicado em 2004: Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation. No Brasil, o livro foi publicado pela Elefante em 2017 e reeditado pela Boitempo em 2024, tornando-se um dos textos mais citados nos movimentos feministas e na academia brasileira contemporânea.
Professora emérita de Filosofia e Política Internacional da Hofstra University (Nova York), Federici continua ativa nos debates sobre feminismo, comuns e anticapitalismo. Sua obra mais recente, Beyond the Periphery of the Skin (2020), analisa o corpo como campo de disputas políticas do século XXI.
Para ir além
- FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva, Boitempo, 2024.
- FEDERICI, Silvia. A Revolução do Ponto Zero: Trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas, Elefante, 2019.
- FEDERICI, Silvia. Reencantando o Mundo: Feminismo e a Política dos Comuns, Elefante, 2022.
- FEDERICI, Silvia. Para Além das Fronteiras da Pele, Elefante, 2022.
- FEDERICI, Silvia. Wages Against Housework [original em inglês], Power of Women Collective / Falling Wall Press, 1975.
- FEDERICI, Silvia. Caliban and the Witch [original em inglês], Autonomedia, 2004.
- DALLA COSTA, Mariarosa; JAMES, Selma. As mulheres e a subversão da comunidade, 1972.
- BHATTACHARYA, Tithi (org.). Teoria da Reprodução Social: remapear a classe, centralizar a opressão, Elefante, 2023.
