Obra · Atlas NEXO
Original: Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation
A obra que demonstrou que a caça às bruxas europeia foi um componente estrutural do capitalismo: não superstição, mas violência fundante contra a autonomia das mulheres e o cercamento dos comuns.
Contexto histórico
Publicado nos Estados Unidos em 2004 após mais de duas décadas de pesquisa, Calibã e a Bruxa chegou ao Brasil pela Elefante em 2017, em plena efervescência do feminismo popular nas jornadas de rua. A reedição pela Boitempo em 2024 consolidou o livro como referência obrigatória no ensino superior e nos coletivos feministas. A obra surgiu de um conjunto de questões que o marxismo clássico deixava sem resposta: quem produz o trabalhador? O que acontece com o trabalho que não recebe salário? Por que a transição ao capitalismo foi acompanhada de uma perseguição em massa a mulheres? Federici localizou essas respostas nos arquivos históricos europeus e nos relatos da colonização das Américas.
Argumentos centrais
Federici reescreve a história da acumulação primitiva incluindo a metade que Marx deixou em silêncio: a perseguição sistemática às mulheres que mantinham formas de vida incompatíveis com o capitalismo emergente. A bruxa é a figura que resiste; Calibã é o colonizado. Ambos são vítimas do mesmo projeto.
O livro parte de uma pergunta que o marxismo clássico não respondia satisfatoriamente: como foi possível transformar populações camponesas autônomas em força de trabalho assalariada? A resposta de Federici passa pela destruição dos comuns, terras, florestas e saberes partilhados, e pelo disciplinamento violento dos corpos, especialmente os femininos.
A caça às bruxas, que ceifou entre 40 e 60 mil vidas entre os séculos XV e XVIII, não foi um episódio de superstição medieval. Foi uma política de Estado coordenada para eliminar as curandeiras, as parteiras e as detentoras de saberes populares que tornavam as comunidades relativamente autossuficientes e resistentes à lógica do salário.
O argumento de Federici conecta colonização, expropriação de mulheres e destruição da natureza em um único processo histórico. Não são três histórias paralelas: são a mesma operação de acumulação primitiva que deu origem ao capitalismo moderno.
Conceitos relacionados
Por que importa hoje
Para professores de educação ambiental, Calibã e a Bruxa é insubstituível porque faz o que poucos livros conseguem: une a destruição da natureza à opressão das mulheres no mesmo gesto histórico. A queima de florestas comunais e a perseguição de mulheres não são metáforas uma da outra: são o mesmo processo de cercamento e expropriação. Professores que trabalham com comunidades tradicionais, com territórios indígenas, com corpos feminizados e com a crise ecológica encontram aqui a fundamentação histórica que conecta esses temas ao capitalismo emergente. O conceito de 'cercamento dos comuns' de Federici é talvez a ferramenta mais poderosa disponível para explicar, em sala de aula, por que meio ambiente e feminismo são inseparáveis.
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Situação jurídica do acesso
Todos os direitos reservados
Edição brasileira: Boitempo, 2024 (ISBN 978-65-5928-174-5). Tradução: Heci Regina Candiani e Melissa Brito. Primeira edição brasileira: Elefante Editora, 2017. Não disponível em acervo público em português. Disponível em livrarias.
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Disponível em livrarias físicas e virtuais. ISBN: 978-65-5928-174-5.