Por que importa
Amefricanidade e pretuguês entraram no vocabulário de quem pensa raça, gênero e educação no Brasil. Para o professor, Gonzalez oferece ferramentas para discutir a língua, a cultura e a história brasileiras sem reproduzir o mito da democracia racial. Sua obra é base do feminismo negro brasileiro e dialoga diretamente com a literatura de escrevivência e com o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas.
Contribuições ao pensamento
Amefricanidade+
Pretuguês+
Crítica ao mito da democracia racial+
Feminismo afro-latino-americano+
A crítica da mãe preta e da mulata+
Contexto histórico
Lélia Gonzalez pensa a partir de um país que se contava como democracia racial. O mito, consolidado no século XX, afirmava que o Brasil teria escapado do racismo por causa da mestiçagem. Gonzalez desmontou essa narrativa: mostrou que a suposta cordialidade brasileira escondia uma hierarquia rígida, em que a mulher negra era ao mesmo tempo idealizada como mãe preta e explorada como corpo disponível. Ela escreve também num momento de circulação das ideias decoloniais e do pan-africanismo. Dialoga com Fanon e com os movimentos de libertação africanos, mas recusa importar categorias prontas. Sua aposta é construir um pensamento desde a realidade latino-americana, em que as heranças indígena, africana e europeia se misturam de modo próprio. Daí a força de amefricanidade: não é apenas um conceito, é um modo de reposicionar quem tem o direito de produzir teoria.
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Influências
Recebidas
Exercidas
Externas
- · Abdias do Nascimento
- · Aimé Césaire
- · W. E. B. Du Bois
- · Jacques Lacan
Biografia
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Lélia de Almeida Gonzalez nasceu em Belo Horizonte, em 1935, em uma família negra pobre e numerosa. Formou-se em História e em Filosofia, fez carreira como professora e doutorou-se em Antropologia Política. Tornou-se uma das vozes fundadoras do pensamento feminista negro no Brasil e uma intelectual que recusou separar a militância da produção teórica.
Nos anos 1970 e 1980, ajudou a construir as principais organizações do movimento negro brasileiro. Em 1978 esteve entre os fundadores do Movimento Negro Unificado e participou da criação do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras. Também colaborou na fundação do Partido dos Trabalhadores e do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, e atuou no debate público que antecedeu a Constituição de 1988.
Sua contribuição teórica mais original foi a noção de amefricanidade: uma categoria que reconhece a herança africana e indígena na formação das Américas e desloca o eixo da análise do Atlântico Norte para o continente americano. A partir dela, Gonzalez propôs um feminismo afro-latino-americano, capaz de pensar gênero, raça e classe desde a experiência das mulheres negras e indígenas do Sul.
Leitora de Frantz Fanon e da psicanálise, formulou ainda o conceito de pretuguês: a marca africana na língua portuguesa falada no Brasil, tratada como erro pela norma culta e relida por ela como criação cultural e resistência. Morreu no Rio de Janeiro em 1994, deixando uma obra que só nas últimas décadas passou a ocupar o lugar central que merece.
Para ir além
- GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano, Zahar, 2020.
- GONZALEZ, Lélia. Primavera para as Rosas Negras, UCPA, 2018.
- GONZALEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos. Lugar de Negro, Marco Zero, 1982.
- RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (orgs.). Por um Feminismo Afro-Latino-Americano: ensaios, intervenções e diálogos, Zahar, 2020.