Aprender para obedecer: educação tecnicista, alienação e o fetiche da tecnologia
A escola tecnicista nunca prometeu pensamento. Prometeu empregabilidade. E a versão digital dessa promessa é mais sedutora e mais perigosa.
Resumo
Este ensaio analisa a educação tecnicista como expressão pedagógica do modo de produção capitalista, desde sua consolidação no Brasil sob a ditadura militar e a Lei 5.692/1971 até sua versão contemporânea, o cibertecnicismo, marcada pela plataformização do ensino e pelo fetiche da tecnologia. A partir da categoria marxista de alienação e do conceito de trabalho como mediação entre o ser humano e a natureza, o texto mostra como a educação tecnicista, ontem e hoje, não prepara para a vida, mas para a substituição. Discute ainda os dados do Relatório UNESCO (2023) sobre desigualdade no acesso digital e argumenta que nenhuma tecnologia educacional transforma a escola enquanto o capital organiza seus fins.
Palavras-chave: Educação tecnicista; Alienação; Tecnologia educacional; Fetiche da tecnologia; Lei 5.692/1971.
1. A escola que forma peças
Há uma pergunta que a educação tecnicista nunca fez: para quê serve o que se aprende? A pergunta foi substituída por outra, mais eficiente e mais controlável: o que o mercado precisa que você saiba?
A distinção parece pequena. Não é. A primeira pressupõe um sujeito que pensa sua própria existência. A segunda pressupõe uma engrenagem que precisa encaixar.
O tecnicismo é a teoria pedagógica que organiza a escola em torno da segunda pergunta. Surgiu no Brasil nos anos 1960, numa confluência de fatores que não foram coincidências: a industrialização acelerada pelo capital internacional, a pressão do Banco Mundial e da OCDE por sistemas educacionais alinhados ao mercado, e uma ditadura militar que precisava de trabalhadores dóceis mais do que de cidadãos críticos. O resultado foi uma escola que aprendia a fabricar peças, não pessoas.
2. A ditadura e a lei que reorganizou a escola
A Lei 5.692/1971 é o documento mais preciso do que a educação tecnicista quer dizer na prática. Editada sob o regime militar, ela reorganizou o ensino brasileiro criando dois trilhos paralelos: o ensino profissionalizante, destinado às classes trabalhadoras, e o ensino médio regular, reservado a quem podia dar-se ao luxo de não se preocupar com emprego imediato.
A bifurcação não foi técnica. Foi política. O ensino profissionalizante foi apresentado como democratização: todos teriam acesso à escola. O que não se disse é que o acesso era a um tipo de escola, o tipo que não questiona, que não filosofa, que não demora, que entrega a mão de obra no tempo certo.
Saviani (2009) observou que essa dualidade estrutural do sistema educacional brasileiro reproduz a divisão social do trabalho: para os filhos da classe trabalhadora, a técnica; para os filhos das classes dominantes, a teoria que organiza quem vai executar a técnica. Não é uma distorção do sistema. É o sistema funcionando.
3. Marx e o trabalho que deixou de ser do trabalhador
Para entender por que a educação tecnicista aliena, é preciso entender o que Marx compreendeu sobre o trabalho. Em O Capital, Marx descreve o trabalho como "um processo entre o homem e a natureza, processo este em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla seu metabolismo com a natureza" (MARX, 2023, p. 255). O trabalho, nessa concepção, é o que diferencia o ser humano dos demais animais: antes de construir, o construtor imaginou. Antes de ensinar, o educador pensou.
No capitalismo, essa mediação consciente é expropriada. O trabalhador vende sua força de trabalho, e o que produz deixa de pertencer a ele. Aquilo que deveria ser expressão de sua humanidade se transforma em mercadoria de outra pessoa. Marx chamou esse processo de alienação: o trabalhador se torna estranho ao seu próprio trabalho, ao produto que criou e, por extensão, a si mesmo.
A educação tecnicista reproduz essa estrutura dentro da sala de aula. O estudante não aprende para compreender o mundo. Aprende para executar funções. O conhecimento não é seu, é do cargo que vai ocupar. A síntese que a escola deveria promover é substituída por um treinamento que reduz o sujeito a uma habilidade específica, descartável quando a habilidade se tornar obsoleta.
4. O fetiche da tecnologia
O tecnicismo clássico usava máquinas e métodos. O cibertecnicismo usa algoritmos e plataformas. A estrutura é a mesma; a embalagem ficou mais sofisticada e mais difícil de questionar.
Marx identificou, na análise da mercadoria, um fenômeno que chamou de fetichismo: a tendência de atribuir às coisas poderes que na verdade pertencem às relações sociais que as produziram. O fetiche da tecnologia faz parecer que o problema da educação está na falta de dispositivos, e não nas condições sociais, econômicas e políticas que determinam quem aprende, o quê e para quê.
Žižek (2010, p. 123) observou que "a ideologia da educação por plataforma mascara a exploração do trabalho e a alienação dos trabalhadores, apresentando a tecnologia como a solução mágica para todos os problemas da sociedade". Governos e empresas de tecnologia educacional repetem há décadas a mesma promessa: acesso a dispositivos resolve desigualdade. O que os dados mostram é o contrário.
5. O que os números dizem
O Relatório da UNESCO de 2023, Tecnologia na educação: uma ferramenta para quem?, apresenta dados que deveriam encerrar qualquer conversa sobre tecnologia como solução universal para a educação. Apenas 10% dos estudantes no mundo, mesmo nos países mais ricos, têm acesso adequado a dispositivos digitais para uso educacional. Noventa e dois por cento dos cursos disponíveis em plataformas digitais estão em inglês, garantindo vantagem estrutural para países do Norte Global e excluindo sistematicamente as populações do Sul (UNESCO, 2023, p. 8).
No Brasil, a expansão do ensino superior privado e a distância abriu o acesso formal à universidade para milhões de pessoas de classes trabalhadoras. É um fato relevante. O que também é fato é que grande parte dessas universidades converteu o acesso em mercado: contratam professores apenas para gravar conteúdo, disponibilizam esse conteúdo repetidamente sem custo adicional e reduzem o aprendizado ao consumo de banco de dados.
O estudante que entra nessa lógica não dialoga com um professor. Ele consome um produto. O diploma que recebe ao final não abre portas que o sistema não quer abertas.
6. O professor descartável
Nenhuma consequência do tecnicismo digital é mais visível e menos discutida do que a desvalorização do professor. A lógica da plataformização transforma o educador em dois tipos de figura igualmente problemáticas: o aplicador de tecnologia, que executa o que o sistema determina, ou o conteúdo gravado, que pode ser reproduzido infinitamente sem que mais nenhum salário precise ser pago.
Nos dois casos, o que se perde é o que a educação precisa para existir de verdade: a relação. Freire (2019) não foi o único a perceber que o ato de conhecer é necessariamente dialógico, que ninguém aprende sozinho e que a presença do outro não é acessório pedagógico, mas condição. A plataforma entrega informação. A relação, não.
A substituição do professor por sistemas digitais não é apenas uma questão trabalhista, embora seja também isso. É uma questão epistemológica: o que se chama de educação quando se retira dela a possibilidade de questionar, de errar junto, de construir sentido em tempo real?
7. Tecnologia fora do capital
Não existe solução tecnológica para um problema que é estrutural. Enquanto o capital organiza os fins da educação, toda tecnologia que entra na escola vai servir ao capital. Isso não é pessimismo. É a leitura correta das condições.
O que isso não significa é que a tecnologia seja neutra ou inimiga. Significa que ela não é suficiente, e que confiar nela como resposta, sem antes questionar quem a controla, quem financia e para que serve, é reproduzir exatamente o fetiche que mantém a roda girando.
Uma educação que liberta não é aquela que tem mais telas. É aquela que tem mais perguntas. Que reconhece no estudante um sujeito que pensa, e não uma variável a ser otimizada. Que trata o professor como intelectual, não como operador. Que usa tecnologia quando ela serve à formação humana, e recusa quando ela serve à substituição do ser humano por dado.
Isso exige, antes de qualquer reforma pedagógica, uma clareza política: a pergunta não é como usar melhor a tecnologia na educação. A pergunta é quem decide para que a educação existe.
Referências
- FILHO, Domingos L. A 'era tecnológica' entre a realidade e a fantasia: reflexões a partir dos conceitos de trabalho, educação e tecnologia em Marx. Histedbr, Campinas, p. 83-92, ago. 2010.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 70. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
- MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: livro I. 3. ed. São Paulo: Boitempo, 2023.
- SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 41. ed. Campinas: Autores Associados, 2009.
- UNESCO. Tecnologia na educação: uma ferramenta para quem? Resumo do Relatório Global de Monitoramento da Educação. Paris: UNESCO, 2023.
- ŽIŽEK, Slavoj. Violência: seis reflexões enviesadas. São Paulo: Boitempo, 2010.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Aprender para obedecer: educação tecnicista, alienação e o fetiche da tecnologia. Revista NEXO, v. 1, e0003, 2026. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.20799392.
Luz, L. M. R. (2026). Aprender para obedecer: educação tecnicista, alienação e o fetiche da tecnologia. Revista NEXO, 1, Article e0003. https://doi.org/10.5281/zenodo.20799392
