Educadora, pesquisadora e fundadora de uma instituição de conhecimento construída para durar além de seus fundadores.

Nenhuma instituição nasce pronta. Ela nasce de uma ferida, de uma pergunta, ou de uma recusa.
No meu caso, essas três dimensões sempre caminharam juntas.
Cresci num ambiente onde o conhecimento era vivido antes de ser estudado. As mulheres da minha família não tinham acesso às teorias que eu viria a encontrar na universidade, mas viviam com uma clareza prática que nenhum livro me ensinou da mesma forma: o que é trabalho real, o que é resistência cotidiana, o que significa sustentar algo com o próprio corpo e a própria vontade.
Passei boa parte da adolescência dentro de uma igreja evangélica. Não foi uma etapa que superei nem um engano do qual me liberei. Foi onde aprendi o que é comunidade de verdade, o que é servir sem esperar retribuição, o que é a música como linguagem coletiva. A fé me deu perguntas que a teologia acadêmica levaria anos para nomear.
A música foi formação, não passatempo. Aprendi teclado, dei aulas em escolas de música, trabalhei com musicais, ensaiei bandas. Aprendi que ritmo é uma forma de pensamento, que escuta é uma disciplina, que criação coletiva exige mais de você do que qualquer trabalho solitário.
Quando cheguei à Teologia da Libertação, não encontrei uma ruptura com o que eu vivia. Encontrei um nome para o que eu já sabia.
Leonardo Boff, Michael Löwy, Paulo Freire, Sabrina Fernandes: cada um, a seu modo, confirmou que o conhecimento situado no corpo, na terra e na experiência concreta das pessoas não é conhecimento menor. É outra epistemologia. E que a educação, quando honesta consigo mesma, é sempre um ato político.
O NEXO não nasceu de um plano de negócios nem de uma visão de mercado. Nasceu da pergunta que não me deixava em paz: por que o conhecimento rigoroso parece sempre reservado a quem já tem acesso? Por que profundidade e acessibilidade são tratadas como opostos quando poderiam ser a mesma coisa?
Esta página não é um currículo. É um registro honesto de onde vieram as ideias que tornaram esta instituição possível.
Minha formação começa muito antes da universidade.
As mulheres da minha família tiveram trajetórias muito diferentes entre si. Algumas construíram carreiras e tiveram acesso à educação formal. Outras viveram longe dos espaços acadêmicos. Algumas desafiaram expectativas do seu tempo. Outras encontraram maneiras de sobreviver dentro das estruturas que receberam.
Nem todas compartilhavam as mesmas visões de mundo. Nem todas fizeram escolhas que eu repetiria. Nem todas compreenderiam as referências que hoje orientam minhas pesquisas. Ainda assim, todas participaram da construção da pessoa que me tornei.
Foi observando suas vidas que comecei a entender o significado do trabalho, da responsabilidade, do cuidado, da autonomia e da permanência.
Muito antes de conhecer Marx, Freire, Federici ou qualquer outro autor, eu já observava mulheres atravessando dificuldades, sustentando famílias, tomando decisões difíceis e encontrando formas de continuar.
Aprendi cedo que a realidade humana é sempre mais complexa do que qualquer teoria. Talvez por isso eu nunca tenha procurado nos livros respostas prontas. Procurei ferramentas para compreender melhor as vidas concretas que existiam ao meu redor.
Minha passagem pela igreja evangélica não foi apenas uma experiência religiosa. Foi uma experiência humana.
Foi nesse ambiente que aprendi a importância da comunidade, da cooperação e do serviço. Foi ali que participei de atividades coletivas, projetos sociais, trabalho voluntário e experiências que ampliaram minha compreensão das desigualdades que atravessam a vida das pessoas.
Também foi nesse espaço que a música ganhou um lugar central na minha formação.
Durante muitos anos participei da vida musical da igreja, atuei em bandas, ensaiei grupos, organizei apresentações e vivi experiências que me ensinaram disciplina, escuta e construção coletiva.
Nem todas as respostas que encontrei naquele período permaneceram comigo. Mas muitas das perguntas permaneceram.
Foi dessas perguntas que nasceram os caminhos que mais tarde me aproximariam da Teologia da Libertação, das ciências sociais, do marxismo e do ecossocialismo.
Antes de me dedicar à pesquisa, eu já estudava outra linguagem capaz de transformar a forma como percebemos o mundo.
Sou formada em teclado e durante anos trabalhei com ensino musical, formação de grupos, ensaios e produções coletivas.
A música me ensinou algo que continua presente em tudo o que faço: ouvir.
Ouvir exige atenção. Exige tempo. Exige reconhecer que nenhuma voz existe sozinha.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar conhecimento de sensibilidade.
A música me ensinou que pensamento e emoção não são opostos. São partes da mesma experiência humana.
A presença constante da MPB na minha vida também ajudou a ampliar meu olhar sobre diversidade, identidade, afeto e cultura. Artistas como Liniker, Maria Bethânia e Gal Costa me ensinaram que a arte pode ser, ao mesmo tempo, beleza, reflexão e coragem.
Meu interesse pela política não nasceu dentro da universidade.
Ele surgiu durante a pandemia, quando milhões de pessoas passaram a questionar as estruturas que organizam a vida social, econômica e ambiental do nosso tempo.
O que começou como curiosidade rapidamente se tornou estudo.
Foi nesse período que encontrei debates, leituras e produções que ampliaram minha compreensão da realidade. Entre elas estavam os trabalhos de Sabrina Fernandes, Jones Manoel e outros pesquisadores que ajudaram a abrir caminhos para investigações mais profundas.
Mas a curiosidade inicial logo deu lugar à pesquisa sistemática.
Foi nesse movimento que encontrei Karl Marx.
Desde então, grande parte da minha formação teórica tem sido construída a partir da tradição marxista e de autores que dialogam com ela: Friedrich Engels, Michael Löwy, Kohei Saito e John Bellamy Foster.
Ao lado deles, autores como Paulo Freire, bell hooks, Frantz Fanon, Enrique Dussel, Silvia Federici, Vandana Shiva, Guillermo Kerber e Françoise d'Eaubonne ampliaram minha compreensão sobre educação, colonialidade, ecologia, emancipação e justiça social.
A literatura também ocupa um lugar permanente nessa trajetória. Gabriel García Márquez e Clarice Lispector me ensinaram que compreender a realidade exige tanto imaginação quanto análise.
Na arte, encontro inspiração em Frida Kahlo e Tarsila do Amaral. Na música, em artistas como Liniker, Maria Bethânia e Gal Costa.
O ecossocialismo surgiu como consequência desse percurso. Não como uma identidade pronta, mas como uma tentativa de compreender a crise ecológica, as desigualdades sociais e os limites do modelo econômico contemporâneo a partir de uma mesma perspectiva crítica.
Foi desse encontro entre educação, sociologia, política, arte, espiritualidade e ecologia que nasceu a visão de mundo que mais tarde daria origem ao NEXO.
Os Gaviões nasceram pra poder reivindicar.
Nem toda referência política chega por livros.
A Democracia Corinthiana foi um experimento de gestão coletiva conduzido dentro do Sport Club Corinthians Paulista entre 1983 e 1984. Jogadores, funcionários, técnicos e diretores passaram a decidir juntos as questões do clube: escalações, contratos, distribuição de recursos, calendário. Uma tentativa real de colocar em prática princípios de participação, responsabilidade compartilhada e autogestão dentro de uma estrutura que não havia sido criada para isso.
O experimento durou pouco. Mas o que ele demonstrou permanece: que estruturas pensadas para concentrar poder podem ser desafiadas de dentro, e que a participação coletiva não é um ideal abstrato.
É uma prática. E toda prática exige coragem.
O que me move não é chegar a algum lugar. É garantir que o caminho exista para quem vier depois.Laís Machado Ribeiro Luz, fundadora do NEXO
A relação entre os modos de produção econômica e os modos de produção de conhecimento. Como as condições materiais definem o que se ensina, para quem e com qual finalidade. Uma pergunta que vem de Löwy e de Freire, mas que se coloca de forma nova num mundo com IA generativa.
A clareza não é simplificação: é um compromisso com o interlocutor. Há uma linha fina entre a clareza que ilumina e a simplificação que deforma. Pesquiso onde essa linha está e o que significa cruzá-la com honestidade.
Os pontos de contato entre a tradição libertadora da Teologia, especialmente em Boff e Gutierrez, e a pedagogia crítica de Freire e bell hooks. A ideia de que educar é sempre um ato de tomada de posição no mundo.
O que significa construir algo durável num momento de colapso de autoridades tradicionais, aceleração tecnológica e polarização epistêmica. Uma pergunta que me acompanha todos os dias que trabalho no NEXO.
Instituição Contemporânea de Conhecimento. Trilhas de formação, Atlas de conceitos e autores, IA pedagógica, comunidade e arquivo institucional permanente. Construída para durar além da pessoa que a fundou.
Registro permanente da intenção fundadora do NEXO. Dez capítulos sobre por que esta casa existe, quais valores são inegociáveis e o que não está à venda. Escrita para as gerações que ainda não chegaram.
Mapa navegável de autores, obras e conceitos fundamentais. Construído com rigor editorial e legibilidade intencional. Cada verbete é uma escolha sobre o que merece ser preservado.
Sistema desenvolvido para orientar, organizar e conectar, sem substituir a investigação humana nem a leitura crítica. A inteligência artificial no NEXO serve ao conhecimento. Nunca o contrário.

O NEXO não foi construído para mim. Foi construído para as pessoas que ainda não chegaram: a estudante que precisa de um caminho mais claro, a professora que merece ter mais tempo para ensinar, o pesquisador que quer que seu trabalho chegue a quem precisa dele.
Minha tarefa é construir a instituição sólida o suficiente para sobreviver ao momento em que eu já não estiver mais à frente dela. Isso exige registrar a intenção, preservar os princípios e formar pessoas capazes de continuá-los com integridade.
Se você chegou até aqui, é porque se importa com o que o conhecimento pode fazer. Isso nos coloca na mesma genealogia.