Eu nasci em Savalu, reino de Daomé, África, no ano de mil oitocentos e dez.Kehinde, narradora de Um Defeito de Cor · p. 19 (Record, 43ª ed.)
Há livros que a gente lê. Este a gente atravessa. São quase mil páginas narradas pela própria Kehinde, que perde quase tudo, menos a memória de quem é.
Arrancada do Daomé ainda menina, ela cruza o Atlântico pela porta da escravidão e desembarca na Bahia. O romance acompanha uma vida inteira: o sequestro, a travessia, a perda de um filho e a busca que vira destino. Não é a escravidão vista de fora. É contada por dentro, na primeira pessoa de quem a viveu.
Atravessar o mar e querer nascer de novo
No navio, ao ver o céu pela primeira vez depois do porão, Kehinde sente o impulso de recomeçar, mesmo sabendo o destino que a espera do outro lado do mar.
Tive vontade de nascer de novo naquele lugar e ter comigo os amigos de Uidá.Um Defeito de Cor · p. 62 (Record, 43ª ed.)
Cinco anos para devolver um nome à história
Ana Maria Gonçalves levou cinco anos escrevendo: dois de pesquisa, dois de escrita e um inteiro reescrevendo, dezenove vezes. Kehinde nasceu de Luiza Mahin, mulher cuja existência foi por muito tempo negada, conhecida apenas como a "suposta" mãe de Luiz Gama, o maior abolicionista do seu tempo. Como quase nada havia sobre ela, a autora pesquisou de trezentas e cinquenta a quatrocentas mulheres que viveram nos mesmos lugares e datas, em anúncios de jornal, cartas, registros de compra e venda de pessoas. De fragmentos, reconstruiu uma vida.
Meu livro foi minha busca também, por construir uma identidade de uma história que me foi negada, a história dos negros no Brasil.Ana Maria Gonçalves, sobre Um Defeito de Cor
O defeito que vira identidade
Ao chegar, querem rebatizá-la com nome de branco e impor os deuses dos brancos. Kehinde recusa. Ela já tinha um nome, recebido na África, e não abre mão dele. "Defeito de cor" era como o sistema colonial classificava a pele negra, um problema a corrigir. O romance inverte o veredito: a cor e a origem viram raiz, e guardar o próprio nome vira ato de liberdade. É isso que o NEXO coloca no centro desta trilha.
Já tinha sido batizada na África, já tinha recebido um nome e não queria trocá-lo, como tinham feito com os homens.Um Defeito de Cor · p. 63 (Record, 43ª ed.)
Nem a protagonista escapa do olhar do colonizador
O NEXO não lê o livro como conto de fadas. A própria Kehinde, revolucionária, carrega contradições. Em certo momento ela toma o lado dos brasileiros contra os africanos, que enxerga como "mais atrasados", e imagina não desprezá-los, mas ajudá-los a ficar como ela. É a colonialidade operando por dentro de quem também é vítima dela. Reconhecer isso não diminui a personagem. Aprofunda a leitura.
Eu também pensava assim, estava do lado dos brasileiros.Um Defeito de Cor · p. 756 (Record, 43ª ed.)
Escrever a vida a partir da própria pele, não para entreter quem oprime, mas para marcar a existência de quem foi calado. É a chave de leitura de Kehinde.
A travessia de Kehinde é também a invenção de uma identidade afro-latino-americana, costurada entre a África perdida e o Brasil imposto.
O "defeito de cor" é uma invenção colonial projetada sobre o corpo negro. Nomear essa invenção é o primeiro ato para desfazê-la.
Por isso o livro saiu do papel e ocupou o presente: virou enredo de escola de samba na Sapucaí, exposição de museu, um dos títulos mais lidos do país. Não como peça de época, mas como espelho. Estudar Kehinde é estudar o Brasil que ainda somos.
Uma trilha sobre assumir quem se é.