A ideia, formulada por Michael Grossman, de que a saúde é um estoque que cada pessoa herda, produz e gasta ao longo da vida, distribuído de forma desigual.
Capital de Saúde é o nome que Michael Grossman deu, em 1972, à saúde entendida como um estoque de capital humano durável. Cada pessoa nasce com um estoque inicial, que se deprecia com o tempo e com o desgaste, e que pode ser reposto com investimento: alimentação, descanso, cuidado, prevenção. A demanda por saúde é, nesse modelo, uma demanda derivada. Ninguém quer saúde como um fim isolado, mas porque ela permite viver, trabalhar e realizar tudo o mais.
Dois mecanismos organizam a teoria. A educação e a renda aumentam a eficiência de produzir saúde, de modo que quem estudou mais tende a usar melhor os recursos de que dispõe e a buscar um estoque mais alto. E há comportamentos que funcionam como anti-investimento, porque depreciam o estoque em vez de repô-lo. O consumo abusivo de álcool é o exemplo clássico, agravado pelo que Becker e Murphy chamaram de adição racional: o consumo de hoje é alimentado pelo de ontem.
A leitura crítica vem aqui. Sem contexto, o modelo responsabiliza o indivíduo pelo próprio estoque, como se todos partissem do mesmo ponto. Mas quem nasce com menos renda, menos escola e em territórios precários herda um estoque menor e tem menos meios de repô-lo. Por isso o capital de saúde só se entende junto com os determinantes sociais. A pesquisa sobre álcool no Paraná dá a medida disso: onde o desenvolvimento humano dos municípios é maior, a mortalidade é menor, e o efeito ainda transborda para as cidades vizinhas.